Matemático norte-americano
explica como alguns dos maiores acasos das nossas vidas se resumem, na verdade,
a probabilidades e números.
Imagine o seguinte: numa
manhã de domingo de junho de 1923, a escritora norte-americana Anne Parrish vai
passear pelas ruas de Paris, onde está passando férias com o marido. Ela entra
numa livraria que está um pouco escondida e vê um livro que lhe traz boas
lembranças: Jack Frost e Outras Histórias.
Anne Parrish compra o livro,
porque era um dos seus favoritos quando era criança, e vai mostrá-lo ao marido.
Quando o marido abre o volume, lê na primeira página: "Anne Parrish, 209
North Weber Street, Colorado Springs, Colorado" e descobre que a mulher
acabou de comprar o livro que lhe pertencia quando era mais nova.
Esta história poderia ser
sobre uma tremenda coincidência, não fosse o fato de Joseph Mazur não acreditar
em coincidências. Para o professor de matemática da faculdade de Marlboro, em
Vermont, Estados Unidos, tudo se resume a probabilidades, até nos casos mais
inacreditáveis.
Joseph Mazur mediu todas as
variáveis desta história - como a probabilidade de uma americana ir para Paris,
passear numa manhã de domingo, ir a uma livraria que venda livros em inglês,
procurar livros na seção infantil - e descobriu que as chances da mulher se
reunir com o livro da infância eram de 1 em 3331.
"Era muito pouco
provável que acontecesse, mas não é tão incrível como parece à primeira
vista", explica o matemático e autor do livro Fluke: The Maths and Myths
of Coincidences. "É ligeiramente mais fácil que te saiam quatro cartas
iguais na primeira distribuição cartas no póquer".
Um amigo telefonar no exato
momento em que íamos pegar no telefone para lhe ligar, encontrar alguém
fisicamente parecido conosco, apanhar o mesmo táxi em duas cidades diferentes
em poucos dias ou até ganhar a lotaria quatro vezes é mais provável do que
parece.
Mazur afirmou ao El Mundo
que até as coincidências mais espetaculares podem ser explicadas pela
matemática. O ser humano não aceita este facto porque não entende as leis da
probabilidade e porque os acasos e coincidências têm o seu encanto, segundo o
professor.
"O mundo é tão grande,
tão estranho e dá tanto medo que as histórias de casualidades nos fazem sentir
mais seguros", explicou Mazur. "Quando nos encontramos com um conhecido
noutra ponta do mundo, não fazemos uma análise fria das probabilidades disso
ocorrer. Conforta-nos simplesmente sentir que há uma espécie de mão que guia os
nossos passos".
Joseph Mazur baseia os seus
cálculos na Lei dos Grandes Números, que diz que se uma experiência se realizar
um número suficiente de vezes, vão acabar por sair resultados cada vez mais
inesperados. Por outras palavras, se algo pode acontecer, acabará por
acontecer.
Um exemplo desta lei é o
Teorema do Macaco Infinito, que diz que se um macaco carregar aleatoriamente
nas teclas de uma máquina de escrever durante muito tempo, acabará por escrever
um texto de William Shakespeare.
Para escrever um texto
completo pode demorar vários anos, mas a matemática diz que as probabilidades
do mesmo macaco escrever a palavra inglesa "shall", com que começa um
dos sonetos do poeta Shakespeare, são de uma em 11,88 milhões.
Os piratas informáticos usam
esta lógica para desvendar senhas, testando milhões de hipóteses com algoritmos
e computadores.
O mito das coincidências
sobrevive graças à "nossa memória seletiva", explica Mazur.
"Todos os dias há milhares de milhões de coincidência que não acontecem e
não nos lembramos delas. Mas as que acontecem - como a do livro de Anne Parrish
- ficam-nos gravadas na memória, contamo-las em festas e acabamos por chamar
coincidências e acontecimentos que são meras probabilidades matemáticas".
Se por um lado Mazur quer
apagar a ideia das coincidências, ele assume que as probabilidades também podem
mudar vidas. Como exemplo, conta a história de como conheceu a mulher.
"Foi numa marcha contra
o Vietname com centenas de milhares de pessoas", conta. "Ela estava
ao meu lado, nós começamos a falar e o resto é história. Sim, já sei que podia
ter conhecido muitas outras mulheres mas gosto de pensar que ela é a minha alma
gémea e que estava a minha espera", conclui.
FONTE: Diário de Noticias
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